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O impacto das guerras comerciais e das tarifas sobre as economias em desenvolvimento

  • Foto do escritor: Katherine Devaid
    Katherine Devaid
  • 27 de mar.
  • 6 min de leitura

Ao longo da última década, o comércio global passou por um nível de turbulência sem precedentes, com várias rupturas que mudaram bastante o cenário econômico internacional. Um dos principais fatores foi a guerra comercial prolongada entre Estados Unidos e China, que não só desgastou a relação entre as duas maiores economias do mundo, como também gerou impactos em praticamente todos os mercados globais.


Ao mesmo tempo, observamos crescer uma onda de políticas mais protecionistas adotadas tanto por países desenvolvidos quanto por emergentes - que foram simbolizadas mais recentemente por decisões do governo Trump e por consequência acabaram revertendo décadas de avanço em direção a um comércio mais aberto e liberalizado. Tudo isso trouxe mais incerteza, aumentou custos para as empresas e bagunçou cadeias de suprimento que antes eram estáveis.


Embora as guerras comerciais geralmente aconteçam entre grandes economias, quem muitas vezes sofre as consequências são os países menores e em desenvolvimento. Isso acontece porque eles acabam sendo afetados indiretamente, seja por cadeias produtivas interrompidas, mudanças no fluxo de comércio ou queda na demanda global.


Mesmo sem participar diretamente desses conflitos, países em desenvolvimento são especialmente vulneráveis quando grandes importadores aumentam tarifas, principalmente quando dependem de poucos produtos para exportação. Muitos desses países contam com o crescimento baseado em exportações, na venda de commodities e na integração com cadeias globais para gerar emprego, atrair investimento estrangeiro e reduzir a pobreza.


Quando as tarifas sobem e o comércio desacelera, essas economias sentem rapidamente o impacto: a demanda pelos seus produtos cai, a moeda fica mais volátil e o crescimento do PIB perde força. Em alguns casos, setores importantes como têxteis, montagem de eletrônicos ou exportações agrícolas, entram em queda - o que acaba afetando o mercado de trabalho e também a arrecadação do governo.


A guerra comercial entre Estados Unidos e China começou em 2018, quando o então presidente Donald Trump decidiu impor tarifas pesadas sobre produtos chineses. A ideia do governo americano era pressionar a China em temas como roubo de propriedade intelectual, transferência forçada de tecnologia e também o grande déficit comercial dos Estados Unidos. Em resposta, a China reagiu com suas próprias tarifas sobre produtos americanos, o que acabou escalando o conflito e aumentando a tensão entre as duas maiores economias do mundo.

Cinco guerras comerciais importantes da última década



As tarifas mais altas do mundo impostas pelo governo do presidente dos EUA, Donald Trump, em 2025


A seguir, uma tabela com alguns dos países que foram atingidos pelas maiores tarifas aplicadas, muitas vezes como resposta a disputas geopolíticas ou medidas de retaliação comercial.


Impacto do aumento de tarifas sobre economias em desenvolvimento


🔹 Redução das exportações


Mais de dois terços dos países em desenvolvimento dependem da exportação de produtos agrícolas, têxteis e matérias-primas. A imposição de tarifas reduz a demanda por parte dos principais importadores, especialmente Estados Unidos, União Europeia e China.


Quando esses mercados aplicam tarifas - particularmente elevadas, na faixa de 30% - sobre produtos de economias em desenvolvimento, a competitividade desses bens cai significativamente. O resultado costuma ser queda nas receitas de exportação, perda de empregos em setores dependentes do comércio exterior e redução da arrecadação de impostos ligados ao comércio. Essas pressões podem agravar vulnerabilidades já existentes em países que enfrentam restrições econômicas ou altos níveis de endividamento público.


Exemplo: A guerra comercial entre Estados Unidos e China afetou severamente as exportações de soja do Brasil e da Argentina, à medida que cadeias de suprimento foram reorganizadas e padrões de demanda mudaram. Da mesma forma, produtores têxteis em Bangladesh e Vietnã enfrentaram queda nos pedidos quando tarifas interromperam cadeias globais de fornecimento do setor de vestuário.


🔹 Disrupções nas cadeias de suprimento


As cadeias de produção são globais. Uma única tarifa aplicada em um país pode aumentar custos e provocar atrasos logísticos para empresas em várias partes do mundo. Esse efeito é particularmente severo para pequenas e médias empresas em países em desenvolvimento, que normalmente não possuem a mesma capacidade financeira ou operacional que grandes corporações para absorver choques.


Desenvolvimento recente: segundo o Banco Mundial (2024), mais de 60% das pequenas e médias empresas da África Subsaariana relataram atrasos em suas cadeias de suprimento devido a tensões comerciais globais, muitas citando dificuldades para obter insumos intermediários e peças de reposição. Países dependentes das exportações têxteis sob o acordo AGOA, por exemplo, registraram redução de pedidos e perda de empregos após a imposição de tarifas.


🔹 Instabilidade cambial


A incerteza no comércio internacional pode levar à desvalorização das moedas em mercados emergentes, aumentando o custo das importações. Guerras comerciais e o ambiente de incerteza associado costumam provocar fuga de capitais e maior cautela por parte de investidores. À medida que o capital migra para ativos considerados mais seguros, as moedas de países em desenvolvimento tendem a se depreciar.


Essa desvalorização torna mais caro importar bens essenciais, especialmente energia, tecnologia e produtos farmacêuticos, que geralmente são cotados em dólares ou euros.


Exemplo: Durante a escalada tarifária entre Estados Unidos e China em 2019, países como Turquia e África do Sul sofreram forte desvalorização cambial devido à aversão global ao risco. Um padrão semelhante se repetiu em 2022, quando novas tarifas foram discutidas no contexto do conflito entre Rússia e Ucrânia, gerando efeitos negativos até mesmo em países que não participavam diretamente da disputa.


🔹 Redução do Investimento Direto Estrangeiro (IDE)


Investidores estrangeiros buscam estabilidade, previsibilidade e acesso aberto aos mercados. Quando um país se envolve — direta ou indiretamente — em uma guerra comercial, ele passa a ser percebido como um ambiente de maior risco. Isso tende a reduzir o fluxo de investimento direto estrangeiro, que é fundamental para o desenvolvimento de infraestrutura, geração de empregos e transferência de tecnologia em regiões em desenvolvimento.


Investidores temem:


  • interrupções nas exportações

  • novas tarifas sobre insumos das cadeias produtivas

  • restrições ao fluxo de capital

  • incerteza regulatória decorrente de reações governamentais à guerra comercial


Exemplo: Os fluxos de investimento direto estrangeiro para a América Latina caíram cerca de 12% em 2024, em grande parte devido às tensões comerciais entre Estados Unidos e China, que levaram à reorganização das cadeias globais de produção e reduziram a atratividade de hubs latino-americanos para investidores internacionais.


Tabela: Efeitos das guerras comerciais nos indicadores macroeconômicos



Recomendações para mitigação de impactos


🔹 Diversificar mercados de exportação


Países em desenvolvimento costumam depender de poucos parceiros comerciais - geralmente Estados Unidos, China ou União Europeia - para a maior parte de suas receitas de exportação. Essa concentração aumenta a vulnerabilidade a choques comerciais, como aumento de tarifas ou mudanças repentinas de política. Diversificar mercados permite distribuir riscos entre mais economias e reduzir a dependência de um único destino.


Ações estratégicas:


  • Firmar acordos comerciais com mercados emergentes na América Latina, Sudeste Asiático e África

  • Participar de feiras internacionais e usar plataformas digitais para conexões B2B

  • Aproveitar acordos regionais como a Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) ou o Mercosul


Exemplo:


Ruanda buscou reduzir a dependência da Europa ampliando exportações de chá para o Oriente Médio e a Ásia, aumentando a estabilidade e o poder de negociação.


🔹 Fortalecer o comércio regional


O comércio intra-regional na África, América Latina e partes da Ásia ainda é menor do que na Europa ou América do Norte. Fortalecer o comércio dentro da própria região ajuda a amortecer choques externos, reduzir custos logísticos e criar cadeias de suprimento mais estáveis.


Ações estratégicas:


  • Reduzir barreiras não tarifárias (atrasos em fronteiras, regras inconsistentes)

  • Harmonizar normas técnicas e procedimentos alfandegários

  • Desenvolver sistemas regionais de pagamento e conversibilidade cambial

  • Investir em corredores logísticos regionais (rodovias, ferrovias e portos)


Exemplo:


A Comunidade da África Oriental harmonizou regras alfandegárias e reduziu o tempo de passagem em fronteiras em até 70%. Acordos como AfCFTA e RCEP surgem como alternativas para reduzir os efeitos do protecionismo global.


🔹 Criar fundos de resiliência comercial


Fundos de resiliência — nacionais ou apoiados por organismos internacionais — podem funcionar como rede de proteção para setores produtivos, trabalhadores e serviços públicos durante períodos de turbulência comercial.


Ações estratégicas:


  • Criar fundos de estabilização financiados por royalties de exportação ou apoio externo

  • Cooperar com organismos multilaterais (Banco Mundial, FMI, UNCTAD) para mecanismos emergenciais

  • Usar recursos para requalificação de trabalhadores, subsídios a setores estratégicos e equilíbrio fiscal


Exemplo:


Alguns países ricos em recursos, como Botswana (Pula Fund) e Chile (ESSF), criaram fundos soberanos de estabilização. Outros, como Angola, Nigéria, Argélia, Timor-Leste e Filipinas, possuem mecanismos semelhantes, mas muitos países em desenvolvimento ainda não têm capacidade fiscal para isso.


Conclusão


A continuidade das guerras comerciais e o aumento de tarifas representam uma ameaça real às trajetórias de desenvolvimento.


Políticas públicas devem priorizar diversificação comercial, resiliência econômica e cooperação regional para garantir crescimento sustentável.


Mais do que um problema econômico, o protecionismo enfraquece a cooperação internacional necessária ao desenvolvimento.


Se essas tensões persistirem, países em desenvolvimento correm o risco de permanecer presos em ciclos de dependência e volatilidade.


Por isso, é essencial investir em sistemas comerciais mais inclusivos, fortalecer cadeias regionais de valor e remover barreiras que limitam a participação plena das economias emergentes.


O progresso não depende apenas de crescimento, depende de acesso justo aos motores do crescimento.


 
 

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