A conta de US$ 29 bilhões da guerra versus o apelo humanitário da ONU: como o conflito com o Irã expôs a hierarquia desigual das emergências globais
- Katherine Devaid
- 13 de jul.
- 4 min de leitura

Entenda como uma única campanha militar no Irã consumiu US$ 29 bilhões em apenas 11 semanas, enquanto todo o apelo humanitário da ONU para atender 87 milhões de pessoas recebeu apenas 24% do financiamento necessário.
Veja como o financiamento global acelera orçamentos de defesa sob o argumento de “riscos existenciais”, ao mesmo tempo em que trata a fome catastrófica como uma questão de desenvolvimento de evolução lenta.
Confira os números em sua forma mais crua, incluindo como apenas 14 semanas de operação de um único porta-aviões dos Estados Unidos seriam suficientes para alimentar plenamente 4 milhões de pessoas nas zonas de fome do Sudão.
Quando Donald Trump autorizou ataques militares contra o Irã em fevereiro, citou “ameaças iminentes” à segurança global. Em 11 semanas, a operação já havia custado US$ 29 bilhões. Enquanto isso, desde dezembro, outra emergência de segurança global se desenrola em 50 países. O apelo humanitário da ONU para 2026 buscava US$ 23 bilhões para alimentar, tratar e abrigar 87 milhões de pessoas afetadas por fome aguda e deslocamento. Até agora, recebeu apenas 24% do financiamento necessário.
O contraste não diz respeito apenas ao dinheiro. Ele revela como os governos classificam as ameaças, mobilizam recursos emergenciais e definem quais formas de insegurança merecem prioridade.
Crises militares costumam desencadear rapidamente autorizações legais, créditos orçamentários extraordinários e uma coordenação política imediata. Já as emergências humanitárias, mesmo quando afetam um número muito maior de pessoas, dependem em grande parte de contribuições voluntárias de doadores. São recursos que podem levar meses para chegar - quando chegam.
Por que a guerra é financiada como uma emergência, enquanto as crises humanitárias não
Especialistas em segurança internacional observam há décadas que as ameaças militares recebem prioridade estrutural nos orçamentos públicos porque são definidas como riscos imediatos e existenciais à sobrevivência dos Estados. Por isso, gastos com defesa costumam ser aprovados rapidamente por meio de créditos extraordinários ou orçamentos suplementares.
As crises humanitárias, por outro lado, são frequentemente tratadas como problemas de desenvolvimento de longo prazo, e não como emergências que exigem uma resposta fiscal imediata.
Em uma análise publicada em março de 2026, o Toda Peace Institute argumentou que os gastos militares são mais fáceis de justificar internamente porque líderes políticos conseguem mobilizar rapidamente o apoio da opinião pública quando uma crise é enquadrada como uma questão de segurança. Os números reforçam essa percepção. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares globais alcançaram US$ 2,887 trilhões em 2025, marcando o 11º ano consecutivo de crescimento. No mesmo período, toda a assistência humanitária internacional somou cerca de US$ 25 bilhões. Isso representa menos de 1% do que o mundo destinou às despesas militares.
A Europa ilustra claramente essa tendência. Em resposta à guerra entre Rússia e Ucrânia, diversos governos europeus ampliaram seus investimentos em defesa ao mesmo tempo em que reduziram seus orçamentos de ajuda internacional. O paradoxo é que os conflitos continuam sendo o principal fator por trás das crises humanitárias no mundo. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) identificaram os conflitos armados como a principal causa da insegurança alimentar aguda em 14 dos 16 maiores focos de fome do planeta.
Analistas argumentam que os gastos militares funcionam como uma forma de segurança preventiva, capaz de dissuadir conflitos antes que eles ocorram. O relatório de 2025 do secretário-geral da ONU reflete essa visão ao afirmar que os Estados vêm aumentando seus investimentos em defesa em resposta a um ambiente geopolítico cada vez mais instável. Esse argumento tem fundamento. No entanto, torna-se mais difícil sustentá-lo quando a própria guerra eleva os custos da assistência humanitária e quando, nas palavras do economista-chefe do Banco Mundial, Indermit Gill, “a guerra é o desenvolvimento em marcha à ré”.
A guerra cobra duas vezes
O conflito com o Irã não está apenas competindo pelos recursos destinados à assistência humanitária. Ele também está elevando o custo operacional da entrega dessa ajuda.
O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, rota por onde passa cerca de 20% do comércio mundial de petróleo, provocou impactos imediatos nos mercados de energia e transporte marítimo. O barril do petróleo Brent disparou na primeira semana do conflito e se aproximou de US$ 110 no início de março. O Banco Mundial projeta que os preços globais da energia aumentem 24% ao longo de 2026, enquanto os fertilizantes devem registrar alta de 31%.
Para as organizações humanitárias, os efeitos foram imediatos. O International Rescue Committee (IRC) informou, em maio, que seus custos operacionais aumentaram 50% desde o início da guerra. Contêineres que transitam pela região passaram a pagar uma sobretaxa emergencial de US$ 3 mil.
A rota padrão utilizada pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) para transportar suprimentos da Índia ao Sudão foi ampliada em cerca de 9 mil quilômetros, acrescentando 25 dias ao trajeto e elevando significativamente o custo por tonelada transportada.
No Sudão, os preços dos combustíveis e do trigo subiram 80% e 70%, respectivamente. Cozinhas comunitárias, que se tornaram um mecanismo essencial de sobrevivência durante a fome, começam a encerrar suas atividades.
A organização Save the Children calcula que cada aumento de US$ 5 no preço do petróleo provocado pelo conflito elimina o equivalente a um mês de ajuda humanitária capaz de salvar vidas de aproximadamente 40 mil crianças.
O que US$ 29 bilhões poderiam financiar
A comparação entre os gastos militares e o financiamento humanitário torna-se ainda mais evidente quando analisada sob uma perspectiva operacional.
Para compreender a dimensão real dessas escolhas, basta observar o que exatamente os mesmos US$ 29 bilhões gastos na campanha militar poderiam financiar no campo da assistência humanitária.
O paradoxo da segurança
A justificativa apresentada pelo governo Donald Trump para os ataques contra o Irã foi a necessidade de garantir a segurança internacional, eliminando uma suposta ameaça nuclear e preservando a estabilidade regional. No entanto, 87 milhões de pessoas vivendo uma crise humanitária aguda também representam uma ameaça à segurança sob qualquer critério
comparável. Trata-se de uma crise capaz de matar, deslocar populações, alimentar processos de radicalização e desestabilizar regiões inteiras com a mesma previsibilidade atribuída a um programa de mísseis balísticos. Ainda assim, os mesmos governos raramente a classificam como uma emergência que exija uma resposta no mesmo nível de urgência.
Como afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, enquanto as crises humanitárias não despertarem o mesmo senso de urgência nem receberem a mesma resposta institucional destinada às emergências militares, a distância entre o discurso da segurança global e a realidade humanitária tende a continuar se ampliando.


